Preço internacional do petróleo voltou a subir Imagem criada com uso de IA
Agravamento do conflito no Oriente Médio fez barril atingir patamar de US$ 91 nesta terça (18)
A cotação internacional do barril de petróleo voltou a subir nesta terça-feira (18/8), após forte alta no dia anterior. O preço do tipo Brent rompeu o patamar de US$ 91 — o maior em três semanas —, com o temor do mercado de intensificação do conflito entre Estados Unidos e Irã. Além dos bloqueios no Estreito de Ormuz, novos ataques a navios estão sendo registrados na região, o que reduz drasticamente a oferta global da commodity.
As implicações da alta do petróleo no Brasil vão além do preço dos combustíveis no mercado interno. Podem impactar a inflação de várias formas, como o aumento de fretes marítimos nas rotas que vêm da Ásia, encarecendo insumos para a indústria e diversos produtos. "O petróleo próximo de US$ 90 cria um choque estagflacionário: aumenta preços ao mesmo tempo que reduz consumo e investimento. Se a energia mantiver a inflação americana resistente e os juros dos Estados Unidos elevados, o custo global do capital continuará pressionado, e uma pausa do Copom (Comitê de Política Monetária) será mais prudente”, alerta Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest.
Para ele, tentar neutralizar um choque de oferta com juros excessivos pode aprofundar a desaceleração da economia brasileira sem produzir uma queda proporcional da inflação. “Por isso, a trajetória internacional dos juros será tão importante quanto o IPCA brasileiro na decisão do Copom de setembro”, explica Patrus. A taxa atual da Selic é de 14%.
“A questão decisiva não é apenas quanto o petróleo subiu, mas se esse choque altera a formação de preços da economia brasileira. A alta pode ser absorvida como um movimento temporário de combustíveis e fretes ou acabar incorporada a contratos, reajustes e expectativas. Como as expectativas de inflação no Brasil permanecem acima da meta, o Copom tem menos espaço para assumir esse risco de cortar juros. Mesmo com sinais recentes de desaceleração do IPCA, uma deterioração adicional das expectativas e das projeções no horizonte relevante poderia levar o Banco Central a interromper o ciclo de cortes em setembro para assegurar a convergência da inflação à meta”, adiciona Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, faz uma ressalva: “A desaceleração do IPCA e a perda de força da atividade ainda me parecem ter mais peso para a decisão de setembro do que o petróleo isoladamente, o que mantém espaço para um novo corte gradual da Selic. O barril acima de US$ 90 funciona hoje mais como um limitador da velocidade de flexibilização do que como razão suficiente para interromper o ciclo, porque o Copom não deveria responder ao efeito primário de um choque de oferta com juros excessivamente restritivos”.
O ponto de inflexão, segundo Lima, seria uma persistência do petróleo em níveis elevados acompanhada de repasse ao câmbio, combustíveis, fretes e expectativas, contaminando núcleos e serviços. Nesse caso, uma pausa na queda da Selic passaria a ser justificável, já que o BC pode admitir uma convergência mais lenta da inflação à meta para evitar aprofundar desnecessariamente a desaceleração da economia.
“O problema não é o barril perto de 91 dólares em si; é o que esse nível faz com as expectativas de inflação, e a própria ata do Copom distingue as duas coisas com precisão. O Comitê diz que não reage aos efeitos primários de um choque de oferta, mas que age com firmeza se aparecerem os efeitos de segunda ordem, que ocorrem quando a energia cara começa a contaminar outros preços, a mudar como a empresa forma preço, como o trabalhador negocia salário e como o investidor projeta a inflação dos próximos anos. É exatamente aí que está o risco real para a Selic”, explica André Matos, CEO da MA7 Capital.
“O petróleo a US$ 90 aumenta o risco inflacionário, mas não muda automaticamente a política monetária. A autoridade monetária tende a reagir à transmissão desse choque para a inflação prospectiva, e não ao preço do barril isoladamente. Sem repasse persistente aos combustíveis, deterioração dos núcleos e das expectativas e efeitos de segunda ordem, o impacto tende a ser maior sobre a velocidade dos cortes do que sobre a direção da Selic. O efeito fiscal da subvenção pode ser mais relevante do que a cotação do Brent. Para a próxima decisão do Copom, o quadro é mais complexo do que o preço do petróleo. A atividade econômica mostra sinais de desaceleração, a despeito de uma pressão ainda vinda de serviços, e a inflação corrente melhorou, enquanto as expectativas para 2027 seguem desconfortáveis”, analisa também Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, completa: “A alta do petróleo eleva custos, mas também retira renda disponível de famílias e empresas, reduzindo a demanda. Como a Selic de 14% já desacelera crédito e atividade com defasagem, reagir ao primeiro efeito e ignorar o segundo pode levar a um aperto excessivo. Por isso, a desinflação doméstica deve prevalecer em setembro e sustentar um corte de 0,25 ponto percentual. O barril limita a sequência, mas não deveria interrompê-la sem repasses persistentes para outros preços”.
Fonte: O Tempo
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