Infraestrutura deficiente gera cascata de custos e pressiona preço dos alimentos
Más condições de infraestrutura nas estradas mineiras têm repercussões na vida de quem passa ou não por elas. Algumas são evidentes, como a insegurança – só em Minas Gerais, foram 765 mortes em rodovias em 2025, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Outras, indiretas, afetam milhões de pessoas e se infiltram no dia a dia das famílias, como a inflação que encarece alimentos e chega à mesa e ao bolso dos mineiros.
Mais de 90% do volume de alimentos e bebidas é transportado por rodovias. Não há perspectiva de curto prazo para que isso mude e, no ritmo atual, quase 85% do setor ainda dependerão das estradas na próxima década, segundo estudo da Fundação Dom Cabral (FDC). Nesse cenário de dependência, problemas nas estradas significam atrasos, perdas e encarecimento das mercadorias. Ou seja, o diesel mais alto nos postos e os buracos no asfalto não são assunto exclusivo de caminhoneiros, e sim um sinônimo de comida mais cara no prato da população.
Mesmo em condições ideais, o custo do transporte é naturalmente adicionado ao preço final dos alimentos. Em Minas, onde 65,4% das rodovias foram consideradas regulares, ruins ou péssimas no relatório anual da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o cálculo ganha mais um componente, explica a diretora executiva da instituição, Fernanda Rezende. “No estado, o transportador tem um acréscimo de 34,8% de custo operacional para operar nas rodovias”, detalha ela.
Custos como a hora do motorista e o combustível se amplificam quanto mais problemática é a rodovia, argumenta Rezende. “Se o motorista tivesse que ir do ponto A ao B em um pavimento em ótima situação, teria um custo de R$ 100, por exemplo. Só que, em Minas, somente 4,5% do pavimento foi classificado como perfeito, então o transportador tem acréscimo de 34,8% nos custos e, em vez de gastar R$ 100, passa a gastar R$ 134,80. Quando isso aumenta, o frete e o custo do que está sendo transportado também aumentam”, pondera.
Em 2025, as más condições das rodovias em Minas causaram um acréscimo de consumo de 176,9 milhões de litros de diesel, estima a CNT, volume equivalente a R$ 1,05 bilhão. Além da despesa, agrava-se o prejuízo ambiental com uma emissão de 460,41 mil toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera. “Se o pavimento estivesse ótimo, o diesel já teria impacto. Com um pavimento ruim, ele é maior ainda”, reflete Rezende.
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Os efeitos indiretos no IPCA
O peso da infraestrutura é indireto na cesta de consumo que compõe o indicador oficial da inflação no Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O número mede a influência de diferentes produtos e serviços no orçamento das famílias, por isso o peso da gasolina, de 5%, é muito superior ao do diesel, de 0,2%, esclarece o coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), André Braz.
Mas, lembra ele, especialmente o preço dos alimentos é resultado de uma cadeia de custos logísticos. “Essa infraestrutura, que não favorece o escoamento da produção agrícola, encarece os alimentos. O transporte rodoviário é um modal muito caro. Poderíamos usar mais ferrovias, se tivéssemos. Se explorássemos mais meios de transporte capazes de transportar um volume maior de carga a um custo menor, isso ajudaria a diminuir o impacto do aumento do preço dos combustíveis sobre os alimentos e tudo o mais que precisamos transportar”, diz.
O economista, consultor e conselheiro de política econômica Stefan D'Amato também enfatiza o impacto das rodovias sobre os alimentos e destaca um segmento notavelmente sensível. “Quando há aumento do diesel, congestionamentos logísticos ou dificuldades de escoamento da produção, o custo adicional é repassado ao longo da cadeia até chegar ao consumidor. Isso é particularmente importante para produtos perecíveis, como frutas, verduras e hortaliças, cujos preços são muito sensíveis aos custos de transporte e distribuição”, argumenta.
Momentos como o atual, em que os conflitos no Oriente Médio pressionam o preço do petróleo, acentuam a volatilidade do preço dos alimentos às condições de infraestrutura em Minas. Mesmo em momentos mais estáveis, porém, o acúmulo de transtornos causados pelo transporte e outras estruturas deficitárias sustentam preços altos em Minas e no Brasil historicamente, expõe o especialista.
“Enquanto as oscilações dos combustíveis costumam gerar choques temporários de preços, os gargalos estruturais de infraestrutura produzem uma pressão inflacionária mais persistente. Estradas em más condições, baixa integração ferroviária, limitações portuárias e elevados custos logísticos reduzem a eficiência da economia e aumentam permanentemente o custo de circulação de mercadorias. Em termos econômicos, isso significa uma redução da produtividade sistêmica do país, tornando bens e serviços mais caros do que poderiam ser. Por essa razão, investimentos em infraestrutura não são apenas uma política de crescimento econômico, mas também um instrumento importante para reduzir pressões inflacionárias de longo prazo e aumentar a competitividade da economia brasileira”, conclui o economista.
Seminário debate sobre infraestrutura e logística
No próximo dia 11 ocorrerá, na Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), O TEMPO Seminários, com o tema “Infraestrutura e Logística”. O evento foca os principais desafios e oportunidades para modernizar o setor e impulsionar o desenvolvimento econômico de Minas e do Brasil.
O encontro reunirá autoridades públicas, investidores e empresários para debater temas estratégicos para o desenvolvimento, como investimentos em infraestrutura, concessões, ferrovias, rodovias, mobilidade, transporte de cargas, integração modal, desenvolvimento regional, cidades inteligentes e logística estratégica.
Seminários O TEMPO - Infraestrutura e Logística conta com patrocínio da Codemge, do Grupo SADA, da Prefeitura de Belo Horizonte, da Prefeitura de Contagem, da Prefeitura de Nova Lima e da Prefeitura de Betim. O evento tem oferecimento do Grupo Projeta e da XP Investimentos. Para retirar o seu ingresso gratuitamente para o seminário, basta acessar a plataforma Sympla.
Fonte: O Tempo
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